"A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original."
(Albert Einstein)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ah, o lado de lá!


Quem me dera poder voltar pra lá. Lá, um lugar tão distante que a pé não se chega. Ah, mas que vontade de voltar pra lá. Lá que é um lugar que só estive uma vez e não consigo voltar mais. E não importa o quanto eu queira, implore e esperneie. Lá, é uma vez e pronto! Eu nunca ouvi falar de alguém que tenha voltado pra lá. Aliás, o verbo "voltar" não existe, assim como não há pretérito perfeito, nem imperfeito, muito menos ainda mais que perfeito.Pois então, de lá só me ficaram as lembranças em pedaços desconexos, um verdadeiro quebra-cabeça quase que impossível de se montar. Não permitem câmeras fotográficas nem que se registre o que se vê num pedaço de papel. Talvez porque o lado de lá guarde segredos daqueles mais ocultos. Que não podem vir a tona de maneira alguma. Gosto dessa teoria, ela faz mais sentido. Dessa viagem pros cantos de lá, eu só trouxe comigo um segredo, que por mais que eu queira agora fazê-lo dele seu, não consigo. Ele deste lado, já faz parte de um passado muito, mas muito distante. Dessa maneira, lá deve estar anos luz a nossa frente. Mas já vou logo lhe avisando, se quiser um dia se aventurar por lá, não tenha pressa de voltar, mas tome cuidado. Lugarzinho traiçoeiro aquele! Quando de lá voltar, segure-se firme. O estrago pode ser 
irreversível ou no minimo grave. Lugarzinho encantador aquele! Pois é, voltei diferente de lá. Voltei cheia de idéias e sentimentos novos. A cada viagem, como já disse, um lugar diferente. É uma pena não podermos escolher o destino, e corremos sim o risco de dar de cara com os mais tenebrosos monstros de armários, e termos de enfrentar os nossos maiores inimigos. Já interrompi a viagem ao meio por sentir um medo que só de lembrar me dá arrepio na espinha. Já saí de lá gritando, as vezes me falta a voz e me pego numa tentativa frenética de fazer um escândalo. É sempre nessa hora que num piscar de olhos me vejo de volta a realidade e indireito a respiração ofegante. Aliás, quando se entra nesses becos, é vantojoso e reconfortante saber que não voltarei mais pra lá. E assim mais calma, me aventuro por outros mundos, tão desconhecidos, mas meus. Sim, meus e de mais ninguém. Lá, só entra quem eu quero e adoro quando recebo visitas inusitadas, sem aviso prévio. Lá, as vezes somos grandes e fortes gigantes, as vezes pequenas e frágeis criaturas. Foi lá que aprendi a voar, e nem sempre me foi preciso criar asas. Lá, desenvolvemos habilidades nada humanas. Ah, quase me esqueci. Lá, também tenho realizações, muitas vezes assustadoras. Chego até a desfazer cada nó, que você nem imagina. Já descobri sentimentos, desejos e inquietudes. Aliás, de souvenir de lá podemos trazer tudo que não é palpável mas que se sente com uma força inquietante capaz de mudar os mais relutantes sujeitos. Que lugarzinho maravilhoso é esse o mundo dos sonhos, não é mesmo?!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Encantamento de Lily Dahl

J
á faz um tempo que eu queria abrir mais essa categoria aqui no P.a.r.a.f.e.r..n.á.l.i.a., mas não sabia por onde começar. Adoro ler e ultimamente um bom livro tem sido uma companhia e tanto. Não sei porque eu demorei tanto para me associar a biblioteca local. Acho que quando a gente está longe de casa a ficha demora a cair. Em fim, o importante é que agora eu posso ler quantos livros eu quiser. A variedade de gêneros, autores e títulos é grande o bastante para me deixar tonta na hora de escolher o que levar pra casa, principalmente quando se trata de publicações internacionais. Além do mais, não devemos julgar o livro pela capa não é mesmo? É por isso, que sempre recorro a seção de recomendações, que por aqui leva o nome de "Quick Pick".

Há uma semana atrás, terminei de ler 'The Enchantment of Lyly Dahl' (título em português: O Encantamento de Lily Dahl) de Siri Hustvedt. Considerado um dos 'best sellers' de 2008, o romance tem como cenário a pequena cidade Webster em Minnesota e conta a história de Lily Dahl, uma jovem de 19 anos que sonha em ser atriz. Entre pequenos trabalhos, Lily ganha a vida mesmo como garçonete do Café Ideal, onde sua vida se repete dia após dia sem grandes sobressaltos e de onde assiste de camarote a rotina apática de cada um dos freguêses assíduos. Um deles é Martin Petersen, um amigo de infância de caráter arredio que com seu balbuciar gasguento arranca arrepios e intriga Lily. O garoto acumula uma obssesão inquieta pela jovem que causa no leitor apreensão e também inquietude. Da janela de seu quarto, ela observa secreta e silenciosamente Edward Shapiro, um atraente e misterioso pintor nova-iorquino que vive em um quarto de hotel, com quem a heroína viverá um romance. A harmonização entre os dois é voluptuosa e sensual e ao mesmo tempo ordinária se comparada à qualquer relacionamento. Mesmo assim o envolvimento dos dois personagens não escapam das más línguas e viram tema nas rodas de fofoca da cidade. Outros personagens aparecem com bagagem cheia de esquisitices ao longo da história temperando assim o cotidiano dos habitantes de Webster e dando ao romance um tom de suspense mais intenso. 

Uma das histórias mais intrigantes que eu já li. É com uma enganadora simplicidade que Hustvedt dá vida a uma verdadeira heroína a moda antiga, e é com bastante frequência que ainda penso em Lily Dahl, como se ela ainda existisse. Imperdível!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Espelho

Eu ando por essas ruas e vejo gente. Eu vejo tudo e não mais que qualquer um. Vejo pessoas andando, pra lá e pra cá, e tento adivinhar pra onde vão. Aqui neste lugar, todo mundo se esbarra mas não se mistura. Quase que nem água e óleo. Os tons de pele vão de pálido aguado à escuro desbotado e no fundo as folhas mudam também de cor. Eu gosto do outono aqui. Gosto de quando as folhas caem e mudam de cor, e secam e encerram mais um ciclo. Gosto porque é quando meus olhos finalmente conseguem testemunhar uma mudança assim tão nitidamente, e olha que geralmente mudanças são, além de inevitáveis, transparentes. A gente só repara quando a transformação já criou forma, e aí não adianta chorar, porque quer você queira ou não, a metamorfose já se enraizou. 
Pois então, observo daqui tudo o que me rodeia, e não me atrevo ir mais adiante. Me contento com o que se aproxima e não ultrapasso os limites de alcance de minha visão. Mas como sou enxerida, penetro os pensamentos de pessoas estranhas e quase sinto suas intimidades. Gosto de dar nomes à cada um deles, mas hoje, por alguma razão, me faltou o dom. Numa dessas caçadas, avistei de longe uma menina-mulher (mais menina do que mulher). Sua pele era escura desbotada mas seus cabelos eram de um negro sem falhas. E quando ela se sentou ao meu lado, percebi que suas medeixas eram lisas por natureza e brilhavam com o reflexo da luz pesada de uma tarde nublada. Disfarcei, para que não fosse pega, não queria que ela soubesse que a observava com olhos analíticos, mas também não dava pra ignorar. Desviei o olhar para janela, a procura de algo que me apetecesse mais. Já em movimento, percebi que metade de nossos rostos, mais especificamente nossos narizes e bocas e ainda nossos pescoços e parte de nossos colos, estavam refletidos num retrovisor tres vezes maior do que a de um carro. Ajustei minha postura para ter certeza que meus olhos não estivessem ali refletidos e olhei pra ela rapidamente. Ela então olhou para mim e pude ver que seus olhos estavam contornados minuciosamente com delineador ou talvez lápis preto que esticavam o canto exterior dos olhos dando à eles uma nova forma. Voltei a observar pelo espelho e dessa vez vi algo que me fez enrugar a testa. Eu vi uma semelhança em nossos traços. Mas precisamente nossas bocas, da qual tenho um imenso orgulho. Pela primeira vez, não me senti tão só. Olhei então para suas mãos que agora estavam inquietas a procura de algo em uma bolsa de couro mole. Ela arregaçou as mangas do casaco também de couro mole e de cor preta que vestia, agora dava pra ver um pouco mais de pele, e reparei que assim como eu, a menina  tinha cabelo nos braços pra dar e vender. Me perguntei se ela as vezes se incomodava com isso, mas ela parecia bastante confortável com sua imagem. Algumas paradas depois, ela desceu do ônibus. E num piscar de olhos, a menina sumiu. Continuei minha jornada de volta pra casa sozinha, e agora me pergunto: Quantas outras versões de mim há de existir?"